Testamento de Rúben
- Yahshurun - Herança de Yah

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O Testamento de Rúben faz parte da obra conhecida como Testamentos dos Doze Patriarcas, um conjunto de escritos pseudoepígrafes que foi preservado ao longo dos séculos principalmente em manuscritos gregos. No entanto, a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto em Qumran, meados do século XX, trouxe novos lances à história: fragmentos em aramaico e hebraico de textos relacionados foram encontrados, sugerindo que as bases desses testamentos circulavam na Palestina muito antes das versões cristãs completas que conhecemos hoje.
Quanto à cronologia, estima-se que o núcleo do texto tenha sido escrito no período do Segundo Templo, provavelmente entre os séculos II a.C. e I a.C. Embora os manuscritos gregos sobreviventes contenham interpolações (adições) cristãs posteriores, o pensamento ético e a estrutura narrativa refletem o ambiente do judaísmo helenístico. O texto funciona como uma "literatura de despedida", onde o patriarca, à beira da morte, reúne seus filhos para transmitir sabedoria acumulada e avisos proféticos.
O conteúdo do Testamento de Rúben é focado no arrependimento e na vigilância moral. Rúben confessa detalhadamente seu pecado com Bila, concubina de seu pai, usando sua falha para alertar seus descendentes sobre os perigos da luxúria e dos "sete espíritos do erro". Ele descreve como os sentidos podem enganar a mente e aconselha a submissão às lideranças de Levi (sacerdotal) e Judá (real). Em suma, é um tratado sobre como a impulsividade pode custar um legado, servindo como um manual de conduta ética e espiritual para a comunidade.
Capítulo 1 | Testamento de Rúben

1 Transcrição do testamento e das exortações que Rúben (Reuven) transmitiu aos seus filhos antes da sua morte, no centésimo vigésimo quinto ano de sua vida. Quando adoeceu, dois anos após a morte de José (Yahusef), seus filhos e netos foram visitá-lo. Ele falou-lhes: "Eu vou morrer, meus filhos, e seguir o caminho dos meus Pais".
2 E ao ver Gade (Gad) e Aser (Asher), seus irmãos, disse-lhes: "Vós, irmãos, amparai-me! Eu gostaria de dizer aos meus irmãos e aos meus filhos o que levo guardado aqui em meu coração. Pois o meu fim se aproxima". Ergueu-se, beijou-os e disse em tom de lamento: "Escutai, meus irmãos e vós, meus filhos! Segui a palavra do vosso pai Rúben (Reuven), nas coisas que vou recomendar-vos!
3 "Peço-vos, por Deus (Elohim) do céu, que não cometais a luxúria e os pecados da juventude aos quais eu me entregava, profanando o leito do meu pai Jacó (Ya'akov). Digo-vos que Ele castigou duramente as minhas coxas durante sete meses. E se meu pai Jacó (Ya'akov) não tivesse suplicado por mim ao Senhor (Yahuh), eu teria morrido. O Senhor (Yahuh) queria tirar-me do meio dos vivos.
4 "Eu tinha meus trinta anos de idade, quando pratiquei o mal diante do Senhor (Yahuh). E pelo período de sete meses estive doente prestes a morrer, por isso, fiz penitência diante do Senhor (Yahuh), com firme determinação, durante sete anos: não bebi vinho, nem cerveja; nem a minha boca provou carne; jamais comi pão doce. Mas afligia-me por causa do meu pecado; ele foi muito grande, e jamais algo igual acontecera em Israel.
Capítulo 2 | Testamento de Rúben
1 "Escutai agora, meus filhos, o que no período da minha penitência eu percebi em relação aos sete espíritos do erro! Foram dados ao homem desde o princípio, também sete espíritos de Belial; são eles que presidem as ações dos jovens. Na criação, foram-lhe conferidos sete espíritos, sobre os quais se apóiam todas as obras humanas.
2 "O primeiro é o espírito da vida, do qual é constituída a natureza. O segundo é o espírito da visão, pelo qual nasce o desejo. O terceiro é o espírito da audição, que possibilita o ensino. O quarto é o espírito do olfato, ao qual se ligam o prazer, a respiração e a aspiração do ar. O quinto é o espírito da palavra, do qual procede o conhecimento.
3 "O sexto é o espírito do gosto, pelo qual se saboreiam a comida e a bebida, e adquire-se forças; o vigor reside no alimento. O sétimo é a força da procriação e da cópula; acompanha-a o pecado, pela voluptuosidade. Por isso, esse espírito foi o último a ser criado; mas é o que predomina na juventude, cheia de insensatez. Ele conduz o jovem como um cego ao fosso, semelhantemente a um animal que cai no abismo.
Capítulo 3 | Testamento de Rúben
1 "Junto com eles, o oitavo, que é o espírito do sono; com ele foi criado o êxtase da natureza, ao mesmo tempo a imagem da morte. Com esses espíritos estão misturados os espíritos do erro. O primeiro deles, a luxúria, apoia-se na natureza e na intenção. O segundo é o espírito da insaciabilidade do ventre. O terceiro é o espírito da agressividade, que se localiza no fígado e na bílis. O quarto é o espírito da afetação e da lisonja, para aparecer e mostrar-se agradável.
2 "O quinto é o espírito do orgulho, que leva à soberba e à arrogância. O sexto é o espírito da mentira, que visa prejudicar; empenha-se em iludir os inimigos e adversários, dissimulando amizade e fidelidade. O sexto é o espírito da injustiça, do qual procedem os furtos e a rapinagem, para satisfazer a cobiça do coração. Em associação com os outros espíritos, ele opera a injustiça pela apropriação de bens. A todos eles junta-se o espírito do sono, o oitavo; trata-se de um espírito de ilusão e de fantasia.
3 "Assim é que todo jovem cai em desatinos. Quando se lhe obscurece o entendimento da verdade, escapa-lhe o reconhecimento da lei de Deus (Elohim) e não obedece às recomendações dos seus Pais. Disso eu também padeci na minha juventude. Por isso, filhos, amai a verdade! Assim, ela vos protegerá. Escutai as palavras do vosso pai Rúben (Reuven)! Não olheis nunca para o rosto de uma mulher! Jamais fiqueis a sós com uma mulher casada! Não vos ocupeis com assuntos de mulheres!
4 "Se eu não tivesse visto Bilah (Bila), quando se banhava num lugar tranquilo, nunca teria eu cometido aquele grande delito. Mas depois que a nudez da mulher entrou no meu espírito, essa não me deixou mais dormir, até que eu praticasse o ato horrível. Meu pai Jacó (Ya'akov) tinha ido ver o seu pai Isaac, enquanto nós permanecíamos em Gader, nas proximidades de Ephrata, na casa de Belém. Bilah (Bila) estava deitada no quarto de dormir, embriagada e descoberta. Eu entrei, vi a sua nudez e cometi o pecado. Depois saí, deixando-a lá a dormir. Mas o Anjo de Deus (Elohim) revelou imediatamente ao pai Jacó (Ya'akov) o meu atrevimento. Ele voltou, profundamente entristecido comigo, e não a tocou nunca mais.
Capítulo 4 | Testamento de Rúben
1 "Portanto, não olheis para a beleza das mulheres! Não fiqueis observando os seus atos! Andai no temor do Senhor (Yahuh) e na simplicidade de coração, entregando-vos ao trabalho duro! Ocupai-vos com conhecimentos, com os vossos rebanhos, até que o Senhor (Yahuh) vos conceda uma mulher, segundo a Sua vontade, para não sofrerdes o que eu sofri. Até o dia da morte do nosso pai, nunca mais tive a coragem de olhar a face de Jacó (Ya'akov), nem de entreter-me com qualquer um dos meus irmãos, de vergonha.
2 "E minha consciência torturava-me até aquela hora, por causa do meu pecado. Meu pai, porém, consolou-me, rogando a Deus (Elohim) por mim, para que suspendesse a ira que manifestava contra mim. Desde aquele momento, recolhi-me nos meus pensamentos e não pequei nunca mais. Por isso, meus filhos, observai minhas exortações. Assim, não pecareis, pois a luxúria é a perdição da alma; ela se afasta de Deus (Elohim) e conduz a falsos deuses. E por ela que o entendimento e a inteligência se confundem; ela leva o jovem ao mundo inferior, antes do tempos.
3 "A luxúria já conduziu muitos à ruína. Seja alguém bastante maduro ou bem-nascido, rico ou pobre, ela o leva ao opróbrio, bem como à zombaria de Belial e dos filhos dos homens. Por ter-se José (Yahusef) guardado daquela mulher, mantendo o seu espírito afastado de toda impudicícia, encontrou graça diante de Deus (Elohim) e dos homens.
4 "De muitas maneiras a mulher egípcia insistiu com ele; mandou chamar feiticeiros e ofereceu-lhe poções de amor. Porém o firme propósito da sua alma não cede ao prazer pecaminoso. Dessa forma, o Deu do meu pai salvou-o de todo mal e da morte secreta. Que a luxúria não subjugue vossa mente, e assim também Belial não poderá subjugar-vos.
Capítulo 5 | Testamento de Rúben
1 "As mulheres são maldosas, meus filhos; se não possuem nem força nem poder sobre o homem, procuram atraí-lo por meio de encantamentos, e se não conseguem dobrá-lo por esse meio, pressionam-no com astúcias. Sobre elas falou-me o Anjo do Senhor (Yahuh), ensinando-me que as mulheres são mais sujeitas ao espírito da luxúria que os homens. Armam intrigas em seu coração contra eles. Primeiro transtornam a sua mente por meio do enfeite, e injetam neles o veneno através do seu olhar; depois apanham-no pelo ato. De outra forma, nunca uma mulher poderia subjugar um homem.
2 "Fugi da prostituta, meus filhos! Proibi vossas mulheres e vossas filhas de enfeitarem a cabeça e o rosto! Pois toda mulher que recorre a esses ardis atrai sobre si o castigo eterno. Foi dessa maneira que elas também enfeitiçaram os Guardiões antes do dilúvio. Eles olhavam-nas constantemente, e assim conceberam o desejo por elas. Engendraram o ato em sua mente, e transformaram-se em figuras humanas. E quando aquelas mulheres deitavam-se com os seus maridos, eles vinham e mostravam-se. E as mulheres em seu pensamento conceberam desejos pelas formas visíveis deles, e assim deram à luz gigantes; pois os Guardiões apareciam-lhes como tendo a estatura do céu.
Capítulo 6 | Testamento de Rúben
1 "Guardai-vos da luxúria! Se quiserdes permanecer puros em vossos pensamentos, excluí de vossa mente as mulheres! Dizei também a estas que não se juntem aos homens, para que sejam puras, inclusive na intenção! Mesmo que o pecado não seja consumado, os encontros constantes constituem para elas ocasião de fraqueza doentia, e para nós perpétuo opróbrio de Belial. Na luxúria não há nem juízo nem piedade; a sua avidez encerra toda espécie de ciúmes.
2 "Por isso, não tenhais inveja dos filhos de Levi (Leviy), e não procureis superá-los! Nem conseguiríeis. Deus (Elohim) os haveria de vingar. E vós conheceríeis uma morte horrível. O Senhor (Yahuh) conferiu a Levi (Leviy) o senhorio, e Judá (Yahudah), Dã (Dan) e José (Yahusef), e eu com eles, deveremos ser líderes! Por isso ordeno-vos que sejais submissos a Levi (Leviy). Ele conhece a Lei do Senhor (Yahuh), proporciona orientação nos julgamentos e oferece sacrifícios por todo Israel, até que se completem os tempos em que virá o Sumo Sacerdote (Kohen Gadol) ungido, anunciado pelo Senhor (Yahuh).
3 "Peço-vos, neste momento, diante do Deus (Elohim) do céu, para que cada um de vós profira apenas a verdade em relação ao seu próximo. Aproximai-vos de Levi (Leviy) na humildade de coração, para que de sua boca possais receber a bênção! Ele distribuirá a bênção sobre Israel e sobre Judá (Yahudah); pois a este o Senhor (Yahuh) escolheu para ser o dominador dos povos. Curvai-vos diante da sua força; ele lutará ao vosso lado nas guerras visíveis e invisíveis, e será vosso rei para sempre."
Capítulo 7 | Testamento de Rúben
1 Após ter transmitido tais recomendações aos seus filhos, Rúben (Reuven) morreu. Colocaram-no em uma urna, até o dia em que o levaram do Egito (Kemet-Mitzráyim). Sepultaram-no no Hebron, na caverna dupla, onde jaziam também os seus Pais. Fim


































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